Descomplicando a taxa Selic
Autor: Caio Delani
Este artigo busca explicar a taxa Selic. Entender o que ela é pode ser crucial para compreender como você pode ser impactado por ela e o que fazer diante dessas informações.
1. O que é a Selic?
O termo Selic significa Sistema Especial de Liquidação e Custódia, que se refere ao sistema gerido pelo Banco Central com o intuito de se efetuar a custódia e registrar as compras e vendas dos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional. Esse último termo se refere às contas do governo central, que basicamente emite títulos públicos federais (TPFs) para conseguir honrar com seus compromissos. Os gastos com educação, saúde, novas políticas públicas, entre outros, necessitam de recursos para ocorrerem, e para isso o governo pode obter dinheiro de duas formas:
- Por meio de arrecadação de impostos; ou
- Por meio de empréstimos.
Ou seja, o governo federal pede dinheiro emprestado a outros agentes econômicos, como bancos, empresas e pessoas físicas, com a promessa de devolver esse dinheiro com juros. Esse mecanismo de compra e venda de títulos de dívidas é fundamental para garantir a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional (SFN), além de possibilitar o controle da inflação.
2. O que é a Inflação?
A inflação nada mais é do que a desvalorização monetária; isto é, a perda do poder de compra do dinheiro ao longo do tempo. Para medir a inflação, utilizamos um índice geral de preços, sendo o mais usual o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), e sua taxa de variação é o que usamos para determinar o quanto os preços estão subindo. Para melhor compreender a inflação, vamos imaginar um seguinte cenário de uma economia hipotética:
- Há um milhão de moedas nessa economia;
- Há um milhão de pães produzidos por dia;
- Há 100.000 pessoas nessa economia;
- Cada pessoa possui 10 moedas;
- Cada pão pode ser trocado por uma moeda;
- Vamos supor que, para obter o máximo de satisfação, cada pessoa tente consumir o máximo de pães que puder.
É possível compreender que, a cada dia, uma pessoa consegue comprar 10 pães. Porém, em um dia, vamos supor que o governo cunhou mais moedas e a quantidade de moedas na economia aumentou para dois milhões e cada cidadão tem em mãos 20 moedas, o que significa que, agora, cada pessoa consegue comprar 20 pães por dia. Porém, a quantidade produzida não se alterou, de modo que ainda existam um milhão de pães por dia para uma demanda ainda maior. Ou seja, com os preços que existem agora, é insustentável mantê-lo, visto que assim os pães seriam esgotados e nem todos conseguiriam consumir. Por isso, é natural que ocorra um aumento de preços, digamos de duas moedas por pão, e assim seria possível conter o aumento da demanda. Logo, um aumento de moeda não gerou aumento de riqueza, e o poder de compra da moeda diminuiu, visto que são necessárias mais unidades monetárias para consumir a mesma quantidade de pães. Essa pequena história ajuda a compreender o porquê da desvalorização monetária ocorrer.
Desde o advento do Plano Real, em 1994, o Real perdeu o seu poder de compra: o que era possível comprar com R$100,00 nessa época é totalmente diferente do que é possível comprar hoje em dia. Estima-se que o Real tenha perdido cerca de 88,4% do seu valor original até outubro de 2025, de modo que R$100,00 hoje consigam comprar o equivalente a R$11,64 de mercadoria em 1994. Isso decorre da desvalorização monetária ao longo das décadas, seja pela maior emissão monetária, seja pela desvalorização cambial.

3. A taxa Selic e seus impactos
A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia, sendo ela a taxa de juros atreladas aos títulos públicos federais (TPFs). Ela impacta todas as taxas de juros que existem no país, como as taxas de empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras, além de ser a principal ferramenta de política monetária do país para o controle da inflação. Ela costuma ser definida no Comitê de Política Monetária (Copom), que reúne o presidente e os diretores do Banco Central para discutir o contexto macroeconômico e qual será o valor da taxa Selic a cada 45 dias, e até outubro de 2025 a taxa se situa no patamar de 15% ao ano. Mas como ela é capaz de controlar a inflação?

Suponha que a inflação esteja subindo no país, com preços cada vez maiores nos mercados e lojas. Isso significa que há uma quantidade maior de moeda em circulação na economia, o que resulta na perda de poder de compra da população. Para reduzir o aumento dos preços, o Banco Central aumenta a taxa Selic, de modo que fique mais atrativo emprestar dinheiro ao governo federal. Assim, pessoas físicas, empresas e bancos deixam de consumir e investir na economia para emprestar ao governo, pois vale mais a pena deixar o dinheiro render do que consumir e/ou investir no momento, reduzindo assim a quantidade de moeda em circulação na economia e consequentemente a taxa de inflação. Caso a taxa de inflação esteja controlada, é possível diminuir a taxa Selic, de modo que obter empréstimos em bancos seja mais barato devido aos juros mais baixos, e assim o crédito para empresas e famílias é viabilizado e expandido.
Perceba que a taxa Selic ajuda a controlar a demanda no país por bens e serviços: se a taxa está baixa, significa que obter crédito e consumir fica barato, e setores como o varejo e de prestação de serviços são beneficiados por essa decisão. Caso a inflação esteja descontrolada, a taxa Selic sobe e o inverso ocorre: obter crédito fica caro e as famílias postergam o seu consumo atual para o futuro.
Além desses fatores, acompanhar a taxa Selic ajuda na tomada de decisão de investimentos. Afinal, caso você esteja pensando em expandir seu negócio ou obter novas máquinas, saber quanto está a taxa básica de juros ajuda a definir quando tomar essas decisões. Afinal, com a taxa Selic alta, fica mais caro tomar empréstimos ou financiamentos, de modo que aumente os gastos do empreendedor. É preciso, portanto, ponderar suas necessidades e ter cautela.
Com isso, conclui-se que a taxa Selic é importantíssima na economia e impacta a todos os brasileiros. Ela, além de ajudar no controle da inflação e em manter o poder de compra do Real, é um importante parâmetro que define o quanto as famílias vão consumir e o quanto as empresas vão investir. Saber seus impactos ajuda você a tomar melhores decisões.
Referências
- Banco Central do Brasil (BCB). Copom. Brasília, DF: BCB, [s.d.]. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/copom
- Banco Central do Brasil (BCB). Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic). Brasília, DF: BCB, [s.d.]. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/sistemaselic
- Banco Central do Brasil (BCB). Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS): localizar séries. Brasília, DF: BCB, [s.d.]. Disponível em: https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries
- Banco Central do Brasil (BCB). Taxa Selic. Brasília, DF: BCB, [s.d.]. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/taxaselic
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Inflação. Rio de Janeiro: IBGE, [s.d.]. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/explica/inflacao.php

Muito bom!